FRUTO DO VENTRE
Afins e Serafins
Era uma vez uma família, uma mulher-mãe e seus filhos. Um pai. E, como toda família, cheia de trajetórias boas e nem tanto.
Não há julgamentos nestas linhas. Esta é uma história de aprendizados e de memórias, de resiliência, de amor.
O fio condutor da vida começa no nascimento. O cordão umbilical, fio condutor que nutre é rompido, corta-se um vínculo. E dessa condução e pós ruptura a vida se faz, a vida se perpetua. Por nove meses foi o maior elo da criação. A mãe, o filho, o filho, a mãe.
Evitemos pieguices em dizer que há família perfeita. Nunca houve. E esta também não foi.
Ela, a mulher em questão, é a nona, talvez, - perde-se a conta - de uma linhagem de treze filhos. Dois deles teriam perdido a vida aos meses de vida.
Filha de imigrantes, pai, seu Manuel dos Reis, português, bravo; a mãe, descendente de italianos, Amélia Serafim, a mulher de verdade.
Falemos da filha desta, a nona filha. A vida não lhe fora compraz. Mas teve suas compensações. Pai severo, mãe complacente ao machismo de época. A mulher, ah, a mulher! Casou-se cedo, com o concunhado, irmão do marido da irmã.
Não estudou, não foi independente. E mais uma vez foi mãe, viu corta-se quatro cordões, quatro cortes de cordão.
De uma sabedoria empírica, sabia que os estudos dos filhos seria certeza de futuro, de expandir horizontes. O marido, nem sempre entendia o porquê de a mulher fazer compras de enciclopédias. Afinal, ele, o pai, também não tivera formação e não conseguia entender que além de comer, o lazer, os estudos também tinham importância.
A primeira dos quatro filhos fora leitora desde a alfabetização. E tem em sua memória momentos de abrir as folhas da enciclopédia, que não era nenhuma Barsa, seu sonho de consumo, mas era um apanhado de conhecimentos, de motivo de pesquisa para um conhecimento em construção.
A família mudara do interior para o ABCD, Diadema. A mãe, longe de suas irmãs, escrevia cartas. A filha leitora achava aquilo lindo. Tinha o sonho de escrever assim como a mãe, de ler. De saber o porquê a mãe pulava linhas, fazia recuo em cada parágrafo e assinava no final em evidência depois da longa carta. Muito mais tarde a filha entendera a sabedoria, apesar de iletrada, da mãe.
O tempo passou, os filhos cresceram, e a mãe seguiu sendo a provedora de amor, de atenção e de resistência com todos os percalços de uma família de classe de menor renda, mas cheia de amor. Os filhos estudaram, três mulheres e um homem.
Uma vida de perdas e ganhos.
O marido, já com Alzheimer, faleceu.
Um ano depois, o filho foi acometido de um câncer cerebral muito agressivo, glioblastoma. E entre perdas e os limites que acometem que tem
A filha mais velha, a leitora e leitora de mundo, passou a ter contato mais direto com a mãe, já acometida da doença de Parkinson, passou a ficar limitada. Os diálogos se sucederam e em uma enxurrada de nostalgia, reminiscências.
Mãe e filha, mulheres fortes, guerreiras ensinaram e aprenderem mutuamente em lembranças e recordações.
- Mãe, as pessoas são diferentes.
- Mas por quê? Por que filhos de uma mesma mãe são tão diferentes?
- Os afins se procuram. É sim, minha mãe. Eles se aproximam. Os que têm afinidades se aproximam. Assim também é com os amigos afins.
Ela gostou da expressão.
- Como é mesmo aquela frase?
_ Os afins se procuram.
- Sim. Os afins se procuram.
Ah, mãe, siga sua jornada! Hoje você se foi. Uma nova jornada? Um novo mundo? Ou tudo se acaba?
De qualquer forma, você me ensinou muito. Dentro de sua simplicidade, o cordão que se rompeu e a vida nos uniu. E sou grata por isso. Escreverei cartas pensando em você. Sua vaidade estará em mim. Sua delicadeza e dedicação, seu amor incondicional. Sua referência.
Descanse! Paz e procure seus afins.
Sílvia Pereira